A encomenda de Natal pegou de surpresa as 23 artesãs da Associação dos Empreendedores Zumbi dos Palmares, na periferia de Curitiba. Em 25 dias, elas deveriam produzir 3 mil unidades de anjos para a hidrelétrica Itaipu Binacional. Era, de longe, o maior pedido que haviam recebido. Retalhos de tecido foram espalhados sobre as mesas, as máquinas de costura dispararam e logo o espaço comunitário começou a ser ocupado por um exército de anjinhos natalinos. Cheguei a sonhar com a queda do avião que transportava a encomenda e que precisaríamos fazer tudo de novo, conta a costureira Divair Paganardi, coordenadora da associação. O desfecho bem-sucedido encheu de confiança as moradoras de uma das regiões mais carentes da capital paranaense, por revelar o potencial do grupo. E deu a partida em um negócio de cunho social, a Solidarium. A venda dos brindes de Natal mostrou que havia mercado e capacidade produtiva para atendê-lo, diz Tiago Dalvi, 24 anos, fundador, diretor e um dos seis membros da empresa, que se propõe a fazer a ponte entre pequenos produtores, como a cooperativa Zumbi dos Palmares, e as grandes redes varejistas. A Solidarium encaixa-se em uma categoria de negócio social que se vale dos tradicionais mecanismos de mercado com o objetivo de minimizar desigualdades socioeconômicas.
Dalvi cursou administração de empresas na Universidade Federal do Paraná. Ainda na faculdade, descobriu que sua vocação não cabia em uma carreira tradicional construída dentro de uma corporação. Ele buscava autonomia, queria correr riscos e conviver em ambientes criativos. Na Solidarium, todos podem trazer o seu sonho para empreender, diz. E foi o que ele próprio fez em 2006, quando era colaborador da Aliança Empreendedora, uma organização de apoio a microempreendedores de baixa renda que viabilizou a venda dos brindes de Natal. Nessa transação, Dalvi testou seu talento de comerciante e passou a trabalhar como facilitador no desenvolvimento de produtos de qualidade de pequenos produtores e a representá-los em grandes redes varejistas, de acordo com os princípios do comércio justo. A expressão define um modelo que cria oportunidades de negócios para gerar renda e promover o acesso da população mais carente aos bens de consumo.
De lá para cá, o portfólio da Solidarium engrossou. Possui hoje 250 itens, produzidos por 32 grupos de artesãos. A meta é fechar o ano com 400. São objetos para casa e cozinha, bolsas, caixas organizadoras, chinelos e capas para notebook à venda nas lojas Renner, Tok&Stok, Mundo Verde e Walmart, que testou o potencial de alguns produtos em prateleiras, estandes e ilhas especiais. Mas é no e-commerce da rede de varejo que o negócio tem se mostrado viável financeira e institucionalmente. Isso porque não depende de limitação física de estoque, como nas prateleiras das lojas. Além disso, a distribuição descentralizada permite oferecer maior variedade de produtos. A empresa considera esta sua primeira ação de responsabilidade social no e-commerce da rede. O Instituto Walmart buscava projetos comunitários que gerassem renda e tivessem foco nas mulheres, afirma Paulo Mindlin, diretor do instituto. A Solidarium precisava de parceiros e recursos financeiros. A meta dessa parceria é ambiciosa: constituir o maior canal de comércio justo do Brasil. Desde que aportou por aqui, essa categoria de comércio restringe-se às vendas em lojas próprias, com produtos que tendem a ser exclusivos e caros. A Solidarium e o Walmart planejam massificar as vendas dos produtos, sem perda de qualidade.
Um negócio social baseado nas regras do comércio justo visa aumentar a margem de lucro do produtor, que chega a atingir 50% nas transações com a Solidarium. Para tanto, a empresa dispõe-se a reduzir o próprio lucro, que gira entre 10% e 20%, e a investir em capacitação dos artesãos, estratégias de otimização da produção e redução de custos com matéria-prima. Enquanto o mercado tradicional paga R$ 1 por hora de trabalho do artesão, nós pagamos R$ 4,50, diz Dalvi. O contrato do E-Solidário, como foi batizada a loja virtual do Walmart, é lastreado por um regime especial. O Walmart reduziu em 30% sua margem bruta para fortalecer a causa. O contrato com as lojas físicas segue o modelo tradicional de comércio, com margens em torno de 100%. Um produto que sai da comunidade a R$ 10 é vendido no E-Solidário por R$ 19. Já nas lojas físicas, custa R$ 25.
O objetivo principal do negócio é produzir com qualidade e a preços competitivos. Somente com grandes volumes conseguiremos gerar renda para mais famílias e fazer a verdadeira transformação social, diz Dalvi. Desde que foi lançado, em maio passado, o E-Solidário fatura cerca de R$ 8 mil mensais. Almofadas, capas para notebooks e revisteiros estão entre os produtos mais vendidos.
Instalada em um prédio da Prefeitura de Curitiba, a Associação dos Empreendedores Zumbi dos Palmares é a maior fornecedora da Solidarium. Produz cerca de 24 peças diferentes, que garantem a cada uma das 23 costureiras renda mensal de um salário mínimo. Recentemente, a associação aderiu a um programa de microcrédito para a compra de máquinas de costura industriais. As mulheres trabalham em casa para dar conta dos filhos, já que a creche do bairro está superlotada. Costumam ir juntas ao centro da cidade para comprar material e observar tendências. Em 2010, já faturaram R$ 4 mil em feiras de artesanato.
Outra cooperativa é a Santo Fuxico, que funciona na capela do bairro de Vila Oficina. Ali, três costureiras esmeram-se no corte e costura do patchwork que enfeita edredons, luvas de forno, aventais de cozinha. Habituadas ao trabalho social, que desempenhavam como voluntárias da Pastoral da Criança desde a década de 70, conhecem bem as dificuldades dessa empreitada. O espaço não é nosso, temos de desmontar as mesas do salão na hora da missa, conta Barbina Ferreira Martins. Também precisamos de mais gente para trabalhar, mas as mulheres não têm paciência para aprender, produzir e esperar o retorno. Preferem atuar como diaristas. Aposentadas, as três complementam a renda com os R$ 150 mensais.
Como o fluxo de caixa da maioria das cooperativas é escasso, a Solidarium adianta parte do pagamento. Metade do valor chega sete dias após a entrega do produto e o restante, cinco dias depois do pagamento do varejista. Para não gerar excessiva dependência, a área de produção e logística da Solidarium calcula a capacidade de produção de um grupo e o incentiva a diversificar os compradores. A orientação é que os grupos não ultrapassem 50% da sua produção para a nossa empresa. É o limite entre conforto e perigo, afirma Dalvi.
A Solidarium opera dois modelos de negócio com os microempreendedores. O primeiro, simplesmente como representante comercial das comunidades. Mas ao identificar uma necessidade no mercado, convoca uma equipe de designers para desenvolver um novo produto. As comunidades dão palpites para aprimorar as peças, que ganham um botão aqui e uma dobradura ali. Esse segundo modelo tem se mostrado mais promissor e é por aí que o projeto crescerá, diz Dalvi. O design agrega valor ao produto e também possibilita a diferentes empreendedores produzir a mesma peça. É o que nos dá fôlego para atender a grandes encomendas. No momento, 15 grupos estão sendo mobilizados para entregar um pedido inicial de 100 mil peças para a Natura, fabricante de cosméticos.
Entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fico com os dois, afirma Dalvi
Os planos de expansão da Solidarium preveem uma nova rede de negócios com outras organizações aliadas, de base comunitária e de baixa renda, que praticam comércio justo e produzem artigos semelhantes aos do portfólio da marca. Se tivéssemos 300 produtores, haveria hoje trabalho para todos, diz Dalvi. É nas rodadas de negócios promovidas pelo Sebrae que a Solidarium encontra novos parceiros 70% deles provenientes de comunidades das classes D e E da periferia das cidades, formadas em sua quase totalidade por mulheres. Para 80% delas, o trabalho é renda primária. Esse impacto social foi reconhecido pela Artemisia, incubadora de negócios sociais sediada em São Paulo. Tiago Dalvi recebeu capacitação e apoio financeiro da entidade, que reconheceu nele capacidade empreendedora aliada a uma fibra ética, segundo Marcio Jappe, diretor de novos negócios da Artemisia. Quando saiu da faculdade, Dalvi dizia que entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, ficava com os dois. Está chegando lá. Como empresário social, o lucro é o meio de viabilizar o crescimento do negócio, mas o fim é promover acesso ao mercado, gerar e ampliar a renda, afirma Dalvi.
O QUE FAZ: fundador da Solidarium, em Curitiba, empresa de comércio justo de artigos de decoração, moda e utilidades domésticas, entre outros itens.
Desde os tempos do curso de administração, eu planejava abrir meu próprio negócio. Mas não qualquer negócio. Não me via, por exemplo, vendendo geladeiras. Buscava algo com impacto social. Desse sonho nasceu, em 2007, a Solidarium. Nossos produtos, de bolsas a porta-canetas, são produzidos por estúdios de design e confeccionados por 270 produtores de baixa renda. A maior parte são mulheres, organizadas em associações, cooperativas ou grupos de trabalho. Elas recebem até 3,5 vezes o que ganhariam sozinhas. Ainda assim, o negócio é lucrativo. Temos clientes como Wal-Mart, Tok&Stok e Renner e estamos prevendo um faturamento de cerca de R$ 500 mil para 2010.
A pergunta da vez é: o sucesso do empreendedor pode ser dissociado do sucesso do negócio?
Quando pensamos na Solidarium e no seu fundador, Tiago Dalvi, esta pergunta se torna fácil de ser respondida: não tem como dissociar. Durante a CHOICE Conference, da Artemisia , tivemos a oportunidade de ouvir a experiência de empreendedores sociais e entre eles estava o próprio Tiago. Na fala de todos, reconhecemos fatores em comum, como a paixão do empreendedor e sua capacidade de realização, que inicialmente são os fatores de transformação para que uma boa idéia se torne um negócio de sucesso.
Tiago deixou claro que os números que desenham a realidade do país, como o Brasil ser a 7ª maior economia do mundo e ocupar a posição 184 no ranking de desigualdade social, serviram de motivação para o desejo de mudança nesse cenário que ele julga como sendo inaceitável. A missão de sua empresa social, Solidarium , é colocar produtores locais em contato com grandes redes varejistas, tirando-os da pobreza via aproximação com o mercado, desenvolvendo e ampliando uma rede de criação, produção e distribuição de produtos com alto valor agregado. A meta é de fazer com que a empresa chegue a ser a maior em comércio justo no Brasil.
Em março deste ano, a Solidarium (que se formalizou como uma empresa limitada em 2007) foi selecionada para participar de um programa internacional de mentoria e networking com investidores, realizado pelo Unreasonable Institute , graças a ter alcançado 8 mil dólares em pequenas doações feitas por 116 pessoas. Sobre esta experiência, Tiago diz que:
"Para quem está no mundo corporativo é muito difícil se desafiar, abrir mão da segurança e da zona de conforto. No Unreasonable foram 45 dias fora da zona de conforto. Toda a trajetória foi através de muitos desafios. Mas aprendemos muito com a interação com os usuários. Tem tudo a ver com convicção: o que você quer para a sua vida? Os problemas são urgentes. A mudança deve ser agora. O modelo de passar a vida dentro de uma empresa para se aposentar milionário e depois abrir uma ONG, é falido"!
Foram 45 dias no Unreasonable Institute, passando por um profundo choque cultural. O contato com grandes empreendedores, aliado à mentoria do Unreasonable, fez com que a Solidarium repensasse seu potencial de impacto. Assim, o negócio social que antes parecia ter um leque de mais de 500 produtos, sendo que muitos não falavam a mesma língua, passou a querer mais do que apenas conseguir vender mais produtos: eles agora querem um real Movimento, com uma campanha de marketing profissional, para escalar o negócio e tirar ainda mais pessoas da pobreza.
"Nós viemos da área de administração, mas nunca perdemos tempo planejando demais. Nem pesquisando demais. Fomos direto para a prática e redesenhando o modelo ao longo do processo", diz Tiago.
A surpresa maior aconteceu na semana passada, quando lançados os cinco vencedores do Desafio Todos Ao Trabalho: Ampliando Oportunidades Econômicas, realizado pela Fundação eBay e o Changemakers da Ashoka. Foram cerca de 900 inscrições enviadas de 83 países - o maior número na história dos desafios do Changemakers.com - e os vencedores representam algumas das mais inovadoras soluções de mercado para a criação de oportunidades econômicas e para a geração de empregos para populações desfavorecidas. E quem estava na lista? A Solidarium!
"É muito inspirador ver o alcance das soluções inovadoras que estão criando oportunidade econômica para as populações mais vulneráveis do mundo. Estamos muito felizes com o número recorde de inscrições e verdadeiramente honrados por podermos apoiar o trabalho transformador sendo feito pelas inscrições vencedoras", explicou Diana Wells, presidente da Ashoka, em matéria no site da Changemakers. E nós concordamos.
Falando um pouco sobre o futuro e novas empreitadas, o ano de 2012 será repleto de novidades. A principal delas será o lançamento de uma nova marca no setor de moda, cujo objetivo é gerar um movimento de combate a pobreza com design, estilo e produção inclusiva, algo pioneiro no Brasil. A Solidarium lançará também seu novo site, o qual contará com muitas ferramentas interativas para aproximar ainda mais os produtores dos consumidores.
Com relação ao prêmio de $50 mil dólares da Fundação eBay, ele será utilizado para fortalecer os três pilares do negócio: (1) ampliação da capacidade produtiva e implementação de um sistema de controle de qualidade; (2) ampliação da rede de escritórios de design parceiros e; (3) estruturação de uma rede de representantes comerciais para ampliar seus canais para pequenos e médios varejistas.
Tiago Dalvi é um inovador social Ashoka que usa sua visão de negócios para ajudar a melhorar a vida de milhares de pessoas em seu país de origem, Brasil, conectando produtores locais com varejistas globais estabelecidos tais como Walmart, JCPenney, Whole Foods, e Target.
Dalvi é a essência do negócio social vencedor e organização de economia solidária certificada Solidarium: Transforme O Seu Mundo e um dos cinco empreendedores vencedores do recente desafio Todos ao Trabalho, realizado pela Fundação eBay e The Opportunity Project.
Ao contrário dos modelos de comércio justo tradicionais, que muitas vezes aproveitam as redes de base de comércio justo estabelecidas, Dalvi conecta produtores diretamente com gigantes mundiais do varejo.
Estamos criando um movimento para superar a pobreza. Dentro de quatro anos teremos mais de 10.000 produtores locais que sairão da situação de pobreza e tenho certeza de que a Solidarium não só vai redefinir o curso da pobreza no Brasil, mas irá criar uma revolução no mercado em nosso país.
O Brasil é a sétima maior economia do mundo, tendo ultrapassado por pouco a Itália este ano, e a quinta economia de mais rápido crescimento entre os países do G20. Enquanto o Brasil é uma potência mundial no nível macro, que se classifica no 55o lugar no PIB renda per-capita, ele está perto da base em termos de igualdade social - 184 de 192 países. O Brasil, um país com quase 200 milhões de cidadãos, é um país movido por pessoas que vivem na pobreza - mais de 39 milhões de brasileiros vivem com menos de dois dólares por dia.
"Como brasileiro, eu não posso tolerar isso", disse Dalvi durante sua apresentação do Unreasonable Climax de 2011, quando ele foi reconhecido como um Empreendedor do Instituto Unreasonable neste semestre. "Na Solidarium, nós superamos o impossível. Nossa missão é fazer com que esses produtores locais saiam da situação de pobreza, proporcionando canais de mercado sem competição para os produtos que eles produzem."
O modelo da Solidarium é simples e direto: a empresa analisa oportunidades de mercado e trabalha com equipes de design para facilitar o desenvolvimento de novos e rentáveis produtos tais como roupas, bolsas ou acessórios de cozinha. Eles, então, obtêm esses itens dos produtores locais em todo o Brasil, em lugares variados como Pernambuco, Paraná e São Paulo.
Desde que Solidarium foi fundada, em 2007, tem trabalhado com mais de 1.600 produtores que viviam em situação de pobreza. A esmagadora maioria deles são mulheres entre as idades de 30 e 60; através da conexão deles com redes de varejistas inacessíveis - os Walmarts e JCPenneys do mundo a Solidarium permite que seus produtores tenham acesso a consumidores em mercados muito maiores. Como resultado, os produtores são capazes de aumentar sua renda média em até 80% em apenas dois anos.
Quando um produto é vendido, a maior parte dos rendimentos (35%) vai diretamente para o produtor, que ganha cerca de U$ 70 em média (a Solidarium está trabalhando para triplicar esse número). O saldo é compartilhado pelo varejista (30%), Solidarium (30%) e o designer de produto (5%).
No início deste ano, a Solidarium lançou o maior site de comércio eletrônico no Brasil em parceria com o Walmart, que já oferece aos compradores on-line 300 produtos diferentes de mais de 40 produtores exclusivos locais. E, pessoal, os produtos Solidarium vendem ao ritmo de mais de 100.000 compras!
O objetivo de Dalvi e Solidarium é alcançar um faturamento de quase U$ 8 milhões ao longo dos próximos quatro anos, através da distribuição de produtos do comércio justo descentralizado" para mais de 1.200 lojas no Brasil e nos Estados Unidos.
"Nós temos uma missão, que não é só para fazer desta empresa um sucesso", disse Dalvi. "Estamos criando um movimento para superar a pobreza. Dentro de quatro anos, teremos mais de 10.000 produtores locais que sairão da situação de pobreza, e tenho certeza que a Solidarium não só vai redefinir o curso da pobreza no Brasil, mas irá criar uma revolução no mercado em nosso país."